12 de setembro de 2009

Uma conversa inusitada. Uma reflexão.

Entrei no ônibus rumo a mais um dia interminável e torturante de escola. Não que eu não goste de estudar (na verdade, eu até gosto), mas é que os problemas da vida nos fazem querer ficar em casa, sozinhos, pensando... sofrendo. Sentei na primeira cadeira vazia que encontrei. Lá estava ela. Uma menina cor de jambo, cabelos pretos presos em uma trança, cílios marcantes e enormes e um semblante malvado. Ela aparentava ter uns 10 anos de idade. Segurava firme a sua mochila e mantinha um olhar penetrante na paisagem fora da janela do ônibus. Após sentar, peguei dentro da mochila um vidrinho de álcool em gel e espalhei pelas mãos (é, com essa gripe maluca é melhor não brincar). A mocinha olhou para mim e disse com sua voz de criança (afinal, ela é uma):
- Eu já vi esse produto num filme!

- Sério?

- Sério! Era uma mulher que tinha muito medo de bactérias. Ela passava isso o tempo todo nas mãos.

- Atá.

Terminada a conversa, tirei meu HP e Câmara Secreta da mochila e...

- Que livro é esse?

- Harry Potter e...

Ela tomou o livro das minhas mãos.

- Nossa, que bonitinho! (se referindo àquele pássaro vermelho da capa)

- KAKAKA (uma gargalhada de minha parte). É mesmo!

- Quem você é, aqui?

- A Hermione! (e apontei a ruivinha que se segurava em Harry na capa do livro)

- Nossa, tem cobra aqui. Credo!

- Onde?

- Aqui, olha (e apontou as cobras saindo de uma janela na ilustração)

- Ah, é!

A garota da qual ainda não sei o nome ficou com o livro nas mãos, admirando a capa. Nada de me devolver. Eu, impaciente, querendo terminar a leitura disse:

- Deixa eu terminar de ler. (e peguei o livro de suas mãos)

Abri o livro, coloquei o marcador de páginas no início e...

- Você têm medo de cobra? (e apontou novamente as cobras na pintura colorida da capa de HP)

- Ai, tenho! Muito! E você?

- Eu já segurei uma cobra. E um ratinho também.

- Ecaaaa! Um ratinho?

- Mas eram aqueles domésticos, não tem?!

- Atá! Aqueles são uma gracinha.

- É! [...] Mas quando eu tô com medo, eu oro. (se referindo ao meu medo das cobras, penso eu)

- É!

- Com Deus a gente se sente mais segura, né?!

- É!

- Porque Ele sempre vai proteger a gente.

- É!

[...]

- Porque você acredita em Deus? Porque seus pais falam que Ele existe?

- Também! Mas acredito porque um dia teve um sorteio na escola e eu pedi a Deus "Deus, por favor, me ajude a ganhar alguma coisa para a minha família!" E eu fui a primeira sorteada e ganhei uma Bíblia. Porque Deus só concede as coisas boas. Ele só concede uma coisa se for boa pra você. Mas, se você pedir pra uma pessoa morrer, ele não vai conceder. Porque isso é coisa do malvado lá de baixo. Não é coisa de Deus.

- [...]

- Ontem eu sonhei com os anjos.

- É?

- Aham! Minha mãe disse pra eu sonhar com os anjos e eu não sonhei essa noite. É que quando a gente sonha com os anjos não sonhamos com nada.

- Atá! Entendi.

Nessa hora eu já estava compenetrada na conversa. Guardei o livro e vidrei os olhos, os ouvidos e a mente na menina desconhecida, mas que falava com tanto amor de Deus. E o que mais me impressionava era a idade dela, falando desse jeito. Enquanto eu... Tão confusa aos meus 16.

Ela continuou:

- Quando a gente têm pesadelo é porque assistimos algum filme de terror. O pesadelo é coisa da nossa imaginação. Da nossa mente.

- Semana passada eu sonhei que estava morrendo. - Eu disse - Eu sonhei, acordei de madrugada, voltei a dormir e sonhei de novo. Outro sonho diferente. Mas nos dois eu estava morrendo.

- DUAS VEZES? - Disse-me com uma cara de assustada - CREDO!

- KAKAKA (uma gargalhada de minha parte). Duas vezes!

- Sabe, as vezes Deus entra nos nossos sonhos para mostrar uma coisa que vai acontecer.

- É?

- Aham! Como foi seu sonho?

- É... eu não lembro.

- Hummm. Cuidado, tá?!

- (risinho baixo) Eu sei!

- Você tinha que ler a Bíblia.

- Lá fala da Apocalipse. Fala que vai ter água, um monstro de sete cabeças... E só as pessoas boas vão ser salvas.

- Ai, eu tenho medo.

- Não se preocupa, não! Você boa.

- Será? [...]

- Eu não sei se eu sou boa. Não sei se eu vou ser salva.

- Nem eu... Porque as vezes eu duvido de Deus.
- Mas ele existe!!!


O ônibus parou. Levantamos e fomos andando para a porta. Ela já estava descendo as escadas quando virou e disse:

- Deus existe!!!




*Espero não ser mal interpretada. Não que eu não acredite em Deus. NÃO É ISSO! Só me questiono, as vezes, sabe?! Na verdade, as vezes eu desacredito. Não desacredito da existência dEle. Mas, as vezes, me questiono sobre o por que de algumas coisas. Duas das pessoas que eu mais amo tem uma fé que não se mede. Acreditam de todo o CORAÇÃO mesmo, sabe?! É como eles dizem: "Deus já tocou no nosso coração!" E por que não no meu? Peço, peço e peço... e nada! Ele não toca no meu coração. Sei que as coisas não serão do meu jeito e nem no meu tempo. Serão no tempo de Deus. Mas... era o que eu estava sentindo. Então, resolvi contar essa história que me fez refletir mais ainda. E sabe por que escrevi? Sabe por que questiono e, as vezes, desacredito? Porque não consigo ser daquele tipo que reza o Pai-Nosso todas as noites como uma obrigação. Não consigo ir a igreja só por obrigação. Porque quando me dei conta de que estava rezando o Pai-Nosso por obrigação, por medo... parei! Porque não é isso que Deus quer. O que Ele quer é coração. É fé de verdade. Não adianta só dizer: "Igreja é chato? É! Mas tem que ir, né?!" Como assiiiiim? Não tem que ir, não?! Se não for de coração, não tem que ir!
Senhor, quero senti-lo em minha vida. Quero senti-lo em meu coração.

8 comentários:

Fer. disse...

i-m-o-r-a-l!

adorei o texto!!!! =)

R.Vinicius disse...

Perguntei porque adoraria ouvi-lá cantando Jazz, algum clássico americano. Quanto ao texto, logo volto com mais tempo para lê-lo e comentar. Abraço.

M.A.N disse...

Não se culpe por questionar Deus. Não se culpe por às vezes duvidar. Isto só prova a sua lucidez. A fé dos lunáticos não toca o coração de Deus. O que toca o coração de Deus: um coração bom. Você tem um coração bom? Então fique em paz. Você e Deus hão de se entender. Beijo. Marcos.

P.S. Não sou um teólogo. Sou mais que isto: sou amigo de Deus, embora não frequente templos.

Juliana disse...

Tati, adorei cara ! Juro que ia abandonar seu Blog, não me leve a mal, mais não sou fã de leitura , ok ! Mais eu gostei desse texto, vo ler os outro também ! UAHEIUAH' ♥

Srtª Caps disse...

Acho que vc não me conhece, e nem eu a você mas por acaso acabei caido aki no seu blog e fiquei completamente encantada com sua maneira de escrever.
Essa historia é realmenete inusitada e surpreendente, e não sei porque mas me instigou a fazer um blog.
Acho que podemos compartilhar grandes pensamentos. E mesmo sem te conhecer, sua personalidad descrita parece me agradar, gosto de conversar com pessoas assim.
Ah e desculpapor estar aqui tagarelando (como assim alguem que nem conheço) mas algo realmente me tocou pra escrever isso pra vc.
Ah, e SIM, Deus existe, e ele que me mandou aqui.
Bjos. fique com Ele.

Não existe acaso disse...

Venho lhe avisar que postei essa sua história como primeiro post do meu blog (claro que pus seu nome como autora). Espero não se encomodar.
Visite para conferir.

Não existe acaso disse...

ah, eu sou a Srtª Caps tambem..^^

Mirella disse...

Deus existe com certeza! E na minha vida ele ja fez muita coisa para que eu possa mostrar as pessoas como ele é Deus :) . Adorei o texto Tati , adoro seu blog *-*